Tem uma estrada no meio do caminho

 Carlos Alberto dos Santos Dutra / Instituto Cisalpina

Foto: CESP / Reserva Cisalpina

A cena se repete há mais de 20 anos. Mas só é possível percebê-la durante a noite.

Eles vão chegando aos poucos, pelas bordas. Uns, se arrastando; outros, aos saltos,

ao som do coachar serelepe da rã, que escapa do jacaré-do–papo-amarelo que a espreita.

O rito se prolonga pela noite inteira, em meio a calmaria que assombra o transeunte solitário

 com tamanha paz e segurança.

 

É assim que se sentem capivaras, antas, sucuris, lobos guarás, tamanduás e catetos.

Sob a vigilância da coruja atenta para o esturro da onça, por entre as croas de matas e varjões,

eles adentram pelas margens do paranazão e rio verde amigos.

Todas as noite eles se refestelam na areia, pelas curvas da estrada solitária,

paraíso dos livres em um santuário de meu Deus.

 

É assim por todos os 22.886 hectares da Reserva Cisalpina, no município de Brasilândia, no Mato Grosso do Sul,

onde a natureza está protegida pelos braços da Cesp e a consciência de outros,

ainda que poucos, engajados cidadãos.

 

Mas a alegria dura só até as 6 horas da manhã. Horário paulista.

 

Porque a partir da aurora, com a chegada da balsa de Paulicéia-SP,

a paz animal sossega e é hora de bater em retirada,

tal qual o tuiuiú majestoso que disputa com a garça andeja a linha do horizonte, para o fundão dos pantanais.

 

O fluxo de veículos que cruzam a Rodovia Luigi Cantone, antiga MS-040, hoje BR 158, agora,

o intervalo é de hora em hora,

e os animais retardatários, que ainda se espreguiçam mais demoradamente no leito da estrada,

estes, já estão até acostumados com o tilindar das pedras no casco dos veículos,

batendo firme no chão essa hora, que transforma aos pouco o ambiente de paz, no terror de suas vidas.

 

Não, filhinho, não atravesse a pista. A estrada deixou de ser segura....

Foto: Carlos Dutra / Instituto Cisalpina

Com o enchimento do lago da Hidrelétrica Engenheiro Sérgio Mota (ex-Porto Primavera)

a grande maioria das espécies que viviam numa região que abrange 2,5 mil km2 de área inundada,

milhares deles foram recolhidos e soltos nessa reserva ambiental.

Ali, uma exuberante fauna, desde cervos do pantanal,

que são indicadores da qualidade do ambiente preservado em que vivem,

até onças pardas em um número assustador para a vizinhança local,

tudo harmoniza-se e engrandece a humanidade do entorno.

 

Entorno que, agora, grita e alerta para as consequências da liberação da ponte Mário Covas,

que trará desenvolvimento para a região, mas irá causar uma agressão muito grande ao frágil ecossitema do lugar.

Situação que merece cautela e vigilância.

 

Por isso a sociedade pede que seja determinado um EIA-Rima para a liberação da ponte e o asfaltamento da estrada.

Porque mesmo antes dela ser liberada já está causando morte na fauna que ali existe.

 

Com a inauguração da ponte esse trajeto será livre e permanente,

quebrando o habitat e a rotina dos animais.

Isso será um massacre.

 

A velocidade dos carros não irá respeitar os passinhos miúdos de um preá,

ou o laço brando da sucuri pacholenta, no desjejum da meia-tarde.

Haverá quebra do equilibrio ecológico na região.

 

Ongs como o Instituto Cisalpina, Econg e Apoena, de ambas as margens do rio Paraná

se unem em defesa da vida e pedem:

 

1- velocidade máxima de 60 km/h,

2- radar eletrônico,

3- placas educativas de preservação ambiental,

4- sinalização vertical,

5- tubos subterraneos para a travessia de animais,

6- telas de proteção em determinados pontos como curvas e áreas inundáveis

onde os animais fazem a travessia.

 

Há a necessidade urgente da implantação de:

 

7- Posto da Polícia Militar Ambiental

na cabeceira da ponte para orientar, fiscalizar e coibir a caça e pesca predatória,

tão comum na região

e que aumentará com o aumento do fluxo de pessoas na região.

 

"Para os animais e a natureza não importa o que sentimos ou pensamos.

Importa é o que fazemos".

 

Por isso, junte-se nessa luta.

Posicione-se.

Exija a realização de Estudo e Impacto Ambiental

como condicionante para a liberação da Licença de Operação da ponte Mário Covas.

Somente esse estudo terá força para garantir a sobrevivência da natureza nesse trecho da estrada,

o mais novo Portal de Mato Grosso do Sul.

 

Mais informações:

 

http://www.apoena.org.br/noticias-detalhe.php?cod=454

Foto: Carlos Dutra / Instituto Cisalpina

Apoio:

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